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Gato Pardo

Para quem não conhecia, saiam enquanto é tempo...Para quem já conheceu, puxem duma cadeira...Vem aí a versão 2.0...

Is this normal?

É um verdadeiro tormento ver as notícias.

Violência doméstica que leva ao assassinato de uma mulher ou um casal em países distintos que se esqueceram que têm uma criança em comum e que o bem estar dela devia estar em primeiro lugar.

Acho realmente que o ser humano enlouqueceu de vez.

Ou então isto é um conceito de normalidade que nunca serei capaz de aceitar.

Já lá vão mil posts? Porra, é muito texto...

Picture-2.png

18 de Agosto de 2008.

O Felino foi desenterrado ao melhor estilo Pet Sematary do Stephen King,

E desde então, tem sido sempre a queimar borracha até chegar a este épico número redondinho.

Gostava então de agradecer a todos aqueles que me permitiram chegar ao post número 1000 com alguma sanidade mental.

 

Primeiro que tudo, gostava de agradecer a mim mesmo. Porque sem mim, ficaria um vazio difícil de preencher na blogosfera. Mais ou menos como a vagina da Margarida Rebelo Pinto (tirando que no caso dela, aquilo é mais um vazio que ninguém no seu perfeito juízo se digna a preencher).

Depois, quero agradecer aos meus patrocinadores.

À Nespresso, com a qual tenho tido uma parceria fiel. Eu pago, eles fornecem, eu consumo e logo, eu escrevo. Ainda estou a espera do dia em que não pague um corno pelas cápsulas, visto que faço mais que serviço público e até sei que tenho leitores que trabalham lá.

Á Virginia Tobacco, por serem detentores da marca John Player Special. Eu sei que já não contribuo tanto como no passado mas não me lixem. A minha alma é um pouco mais negra à vossa pala.

Ao Old Parr, por me proporcionarem constantemente uma visão diferente daquilo que escrevo. Por norma, um pouco mais turva após o terceiro ou quarto whisky. Mas tudo bem, eu perdoo-vos. Afinal de contas, os textos nunca foram material para Nobel mas vão dando para o gasto.Pelo menos, ainda há pessoal que lê isto e não reclama.

Agora, ao restante maranhal.

Ao meu gestor de conta porque apesar de saber melhor que ninguém que não tenho onde cair morto, continua a chatear-me todos os anos a aliciar-me para depositar o dinheiro que não tenho em produtos a prazo e enviar-me cartões de crédito com plafonds gigantescos que depois não teria como pagar os juros porque...exacto, não tenho dinheiro!

Ao gajo que me serve o primeiro café da manhã no último ano e meio. Não que ele seja um amor de pessoa mas simplesmente porque consegue decifrar o que digo sem cafeína no sangue. E traduzir o rosnar do ser humano, é algo digno de ser louvado. A minha vénia.

Ao pessoal dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras dos aeroportos por me abordarem de cada vez que viajo para o estrangeiro mas nem por uma vez me terem feito uma vistoria de cavidades. A sério, nem sabem o quanto agradeço ainda desconhecer a sensação.

 Ao meu despertador por continuar a fazer o seu trabalho todas as manhãs, mesmo sabendo que me estou a borrifar para ele e que me viro para o outro lado enquanto ele debita música em altos berros.

Um especial agradecimento aos progenitores. Porque nem nos vossos piores pesadelos, vocês sonhavam o ser demoníaco que iam colocar nesta terra.

A todos aqueles que por alguma razão estranha que desconheço, se dão ao trabalho de ler o que escrevo. Já disse antes...kids, don't do drugs, it's bad for your brain...a sério, seja lá a razão que vos traz aqui (sim, eu sei que são as freiras nuas mas quero acreditar por um breve instante que é apenas pelas menções constantes à pornografia...), eu agradeço na mesma.

E um especial agradecimento ao SAPO. Foi a primeira casa do gato e é agora a segunda. Como não sou muito dado a mudanças, é provável que alugue por aqui um mausoléu e faça disto a morada eterna. Mas um mausoléu à maneira, tipo Kadok ou Pavilhão Chinês. E com a coincidência engraçada do Gato Pardo ter sido destacado hoje no dia em que escrevo o post número 1000.

É uma prenda gira. Não só para mim, mas para todos vocês que têm levado comigo (calma, nada de pensamentos javardos...) nos últimos seis anos.

Venham mais mil. Agora aturem-me!

E a polémica do dia foi...Jessica Athayde

jessica.jpeg

 

Ou pseudo polémica. Porque não há exactamente por onde pegar.

Segundo o que me constou, a rapariga foi convidada a desfilar pela CIA Marítima na Moda Lisboa. Até aí tudo bem. A barraca deu de si e desabou foi quando metade da blogosfera e gente que passa demasiado tempo nas redes sociais decidiu criticar o corpo dela.

Ainda não entendo é exactamente o que é que criticaram.

Será o sorriso?

Será a confiança com que desfilou, embora ela seja actriz e não modelo de passerelle?

Será por não aparentar sofrer de anorexia?

Será por causa do padrão do biquíni?

Depois venho a saber que 99% (só para não dizer 100%, gosto de dar sempre uma margem) das críticas foram efectuadas por mulheres. No surprises there. É um facto que as mulheres quando querem conseguem ser sacanas mas quando envolve outras mulheres, isso eleva-se a cabras da pior espécie.

Eu não vejo polémica nenhuma. A rapariga respira saúde, é visível que sente bem na sua pele.

Vou voltar a bater na mesma tecla de um dos posts mais comentados aqui no blog mas é inevitável. O conceito irreal de beleza feminina continua a passar pela magreza extrema. É triste, mas é uma realidade. No meu caso, eu posso dizer que sou um gajo extremamente afortunado. Todas as amigas que tenho são absolutamente normais. Têm varizes, celulite, gordurinhas localizadas, papos nos olhos, sardas, pés de galinha e a lista continua ao ponto de ser maior que o meu registo criminal. E são mulheres com M gigantesco. Pessoas normais. E não gostaria delas de nenhuma outra forma. Continuo a afirmar que a beleza exterior é muito efémera. Infelizmente, há pessoas que de beleza interior também têm muito pouco. Daí que precisem de criticar algo que nada de criticável tem.

A quem criticou a rapariga... Epá, larguem o computador. Vão fumar um cigarrito. Vão apanhar ar. Hoje até nem choveu grande coisa. Vão dar um queca. Ou duas. Gostam de bilhar? Têm manias de grandeza? Vão dar uma volta ao bilhar grande. Beber café. Dar mais uma queca depois de beber o café e dar a volta ao bilhar grande. Porra, deixem-se de merdas.

Se a dor de cotovelo matasse, alguém ia julgar que andava aí um serial killer a chinar gajas em frente aos computadores.

O marasmo do orgasmo...

Ultimamente parece que todos aqueles que me rodeiam ou falam demasiado de sexo, ou pensam demasiado em sexo ou praticam-no às toneladas (graças a deus, em locais recatados longe da minha vista...Não estou preparado para tomar o meu pequeno almoço e dividir a minha torrada com um clítoris...).

No entanto, não deixa de ser interessante frisar que todos se queixam da mesma coisa...

O orgasmo é monótono!

Segundo uma sondagem que levei a cabo, aparentemente toda as mulheres que inquiri gostavam que o orgasmo fosse uma mistura de rapel, sky diving, nadar com tubarões e ver o companheiro a fazer malabarismo com bolas de bowling a arder enquanto se equilibra num monociclo sob uma piscina infestadas de piranhas!!!

Ladies, get a grip...O ADN masculino não foi concebido para o multitasking... Parte dele, nem quer para a task em questão.

Recentemente, até saiu um estudo que diz que tudo aquilo que se conhece sobre o orgasmo está errado. Congratulations... Give those guys a f*cking lollipop...

Portanto, é suposto eu acreditar num ensaio clínico levado a cabo por gajos que não têm um orgasmo vai para 27 reencarnações e mais uns trocos que afinal de contas todos aquele gemidos, arranhadelas nas costas, mobília danificada, estuque que foi à vida e lençóis com mais ADN que 10 temporadas consecutivas de CSI não tinham nada a ver com o orgasmo feminino?

Fiquei deprimido.

Vou ali imolar um livro da Margarida Rebelo Pinto a ver se me animo...

 

E se fosse desta?

Hoje, uma amiga e eu falávamos daquilo que provavelmente ocupava a mente de muito boa gente.

"O que farias se ganhasses o Euromilhões?"

Ok. Será que o dinheiro mudava assim tanto as coisas? Não vale a pena negar que do ponto de vista financeiro, iria permitir um desafogo eterno. Afinal de contas, 128 milhões não são trocos para um café e um maço de cigarros. Mas e o resto?

Muda a postura de uma pessoa perante a vida? A forma como nos relacionamos?

Se eu fosse o feliz contemplado sei exactamente o que faria. A primeira coisa seria ir comer um bife e beber uma jola à Portugália. Simplesmente porque gosto e porque tenho saudades de comer um bom bife. Basicamente.

 E o resto?

Mudava de carro? Não. Mas arranjava o maldito do kit mãos livres que me dá cabo da mona.

Abdicava de trabalhar? Não. Gosto demasiado do que faço para abdicar de algo que me dá tanto prazer.

Comprava a casa dos meus sonhos? Talvez. Não é a mansão de 27 assoalhadas pela qual talvez tanta gente suspire mas é o meu conceito de sonho. São 3 assoalhadas, tem um alpendre, um imenso areal a perder de vista pela janela e aquele intenso aroma a maresia que só quem o aprecia sabe dar o devido valor. E existe. Fica em território nacional. Namoro-a vai para 10 anos. É um amor eterno.

E que mais?

Provavelmente tornava-me accionista da Nespresso. Só para chatear. Ok, esta foi só mesmo para brincar.

Mas mais importante que tudo o mencionado acima (inclusive o bife e a jola na Portugália) , seria providenciar que as pessoas que me são verdadeiramente importantes não passariam mais um dia das suas vidas a sobreviver. Gostaria de lhes proporcionar a oportunidade de viver. Oferecer aquela viagem que nunca tiveram oportunidade de fazer. Porque ou era isso ou colocar comida na mesa. Proporcionar a melhor formação pessoal e profissional possível para que possam ser tudo aquilo que desejam e possam ser (embora como irmã de quem é, não posso esperar milagres...).

Há quem diga que nunca somos verdadeiramente ricos até ao dia em que teremos o privilégio de possuir algo que o dinheiro não pode comprar. Não deixa de ser verdade. Perdi muita da minha riqueza ao longo deste ano de 2014. Pessoas. Animais que estimava mais que muitas pessoas. Senti-me vazio como poucas vezes me senti na minha vida.

Ainda não foi desta. Mas curiosamente, não me sinto menos rico do que o habitual. Não posso proporcionar tudo aquilo que gostaria a quem me é importante mas dou o melhor de mim.

E essa é a maior riqueza que possuo.

Possivelmente, a pior pergunta que qualquer ser humano me podia alguma vez fazer...Logo a mim!

Esplanada de um café.

Um ser humano e um ser humano com pancas de divindade literária entre um Gabriel Garcia Marquez (mas sem os fatos brancos a fazer publicidade ao TIDE) e uma espécie de Monteiro Lobato (simplesmente porque curtia à brava o Sítio do Pica Pau Amarelo...).

Saiu a pergunta mais inapropriada de sempre.

 

- Como é que abdicaste dos teus vícios?

- Hã...Não abdiquei?

Sou fumador ininterrupto vai para mais de 10 anos. Acho que isso me qualifica como fumador convicto e bastante satisfeito por ser. Consumo esporadicamente algumas bebidas alcoólicas que também não são exactamente água Campilho. Só isso, permite-me dizer que também não abdiquei da bebida. Não abdico do sexo por razões óbvias. Primeiro, sou homem. Segundo, não sou eunuco. Terceiro, se abdicasse dele não podia satisfazer o meu primeiro vício pós coital. Sou carnívoro assumido. Bebo café desde que recordo que sou vivo. Toneladas diárias. Preciso dele como de ar para respirar. Isso acho que diz tudo. Depois, tenho um ego capaz de engolir grande parte dos buracos negros existentes na galáxia...

- Hã...Buracos negros...Ainda estamos a falar de sexo?

- Não, pá. Já passámos esse vício. Keep up. Agora estamos no ego. Que depravado sexual que me saíste...Só pensas nisso.

A sério que de todas as pessoas a quem podias perguntar isso, vais-me questionar logo a mim? Não podias perguntar isso à Paula Bobone ou ao Goucha? Eu sou o ser humano com mais vícios ao cimo da terra, pá...

- Pois, realmente não és a pessoa indicada para abordar este tópico.

- Claro que sou. Pega em tudo o que te estou a dizer e aplica psicologia invertida.

- Nunca fumaste certo? Óptimo. Não pegues num cigarro e tudo ficará bem. Não bebes? Fantástico. Enfrasca-te em coca cola e terás sempre a certeza que o teu intestino ficará sempre tão desentupido como a tua retrete lá de casa.Não bebes café? Boa. Paga-me um então. Eu bebo por ti. Não és viciado em sexo? Ok, isso é um problema mas é teu, não meu. Desde que não te tornes viciado em masturbação. Aí sim, tens um problema grave para além de que vais desenvolver calos nas mãos e por acréscimo, nunca mais te vou dar um aperto de mão com receio que alcances o orgasmo no processo. Gosto de ti mas não gosto assim tanto de ti, capisce?

- Hã...Acho que sim.

- Ok, estamos entendidos. Olha, pede mais dois cafés que toda esta conversa deixou-me deprimido.

- Mas eu não bebo café.

- Eu sei, são para mim...

Faz-se tanta coisa interessante dentro de um carro...ou não. Algumas são simplesmente...como dizer...idiotas? Sim, idiotas soa bem.

Admito que já vi muita coisa ocorrer dentro de carros (muita mesmo, até o calendário do Kamasutra patrocinado pela Michelin...).

Mas masturbação capilar é inédito.

E perguntam vocês, petizes...O que é masturbação capilar, ó divino felino que tudo sabe, ou pelo menos que acha que até sabe umas coisas e ocasionalmente tem piada, principalmente sob o efeito de cafeína nível 9843?

Bem, já que insistem tanto, eu explico.

A dita masturbação capilar (o horror, a tragédia, caem bombas ao meu redor aqui em Bagdad e cenas assim à moda do Artur Albarran) a que assisti (meus pobres globos oculares) consiste num gajo em passar ambas as mãos (portanto, não só é ambidestro como é super dedicado à dita masturbação) pela trunfa cerca de 50 vezes em menos de um minuto com aquele ar de oh si, cariño...

Lembro-me que o meu cão também era extremamente dedicado a lamber os tomates em warp speed mas este gajo era um Nelson Piquet patrocinado pela Isabel Queiroz do Valle.

Eu adoro o meu cabelo. Mas não ao ponto de o massajar até ao êxtase com fogo de artifício à mistura. Não numa fila de 10kms de trânsito ao lado de um autocarro da Carris cheio de velhotas em que a última vez que viram aquela expressão facial o Churchill ainda era vivo.

Sim, há quem diga que foi à pala da masturbação capilar que o Churchill ficou careca. Chama-se fricção até à exaustão.

Malucos...

Quanto vale o sorriso de uma criança?

É inestimável, dirão.

Dentro do contexto certo, concordo em absoluto.

E quando o sorriso de uma criança tem um preço marcado? E tem quatro patas?

Hoje fui beber café a uma superfície comercial. Fim de semana, a azáfama habitual de milhares de pessoas a correr de um lado para o outro. Estou de saída e olho por mero acaso para uma loja de animais. Por norma tento não o fazer, porque sempre me causou impressão ver ali os animais expostos tipo peças de charcutaria.

Vejo uma menina toda feliz da vida, acompanhada da avó e dos pais. Fiquei com a certeza que ela finalmente teria o cãozinho que devia andar a pedir aos pais desde que gatinhava. E de repente, olho mais atentamente para a montra.

850€.

E de repente, dou por mim a pensar em todos os animais que são abandonados diariamente por esse país fora. Que o único crime que cometeram foi amar incondicionalmente os donos, sem nunca pedir meças ou justificações e que acabaram numa berma da estrada à beira da morte ou que simplesmente já não se encontram neste mundo. Pensei em todos aqueles animais que apenas desejam que uma menina como esta, que tenha o coração puro e cheio de amor, lhes proporcione um sítio a que possam chamar de lar, sem receio de que cheguem as próximas férias e os tratem como lixo.

Ao longo da minha vida, tive inúmeros animais. Cães e gatos principalmente. Nunca um deles foi adquirido por meios monetários. Dediquei 16 anos da minha vida a um cão que mataram por envenenamento e este ano perdi o meu gato por velhice. E chorei mais por eles do que alguma vez o farei por muitos seres humanos.

Tenho o privilégio de conhecer pessoas de bom coração. Que recebem nos seus lares animais menos afortunados a quem a vida já atirou demasiadas pedras no seu caminho. Uma dessas pessoas tem 8 cães a seu cargo. Todos haviam sido abandonados.

E cada um deles vale mais do que 850€. Eles sabem isso. Sabem que são inestimáveis E que não há cartão multibanco neste mundo que algum dia mude isso.

A vida pode não ser como desejamos. Mas está longe de ser um poço sem fundo.

Hoje lembrei-me de um dia em particular.

Fui almoçar com um amigo que tinha a sua empresa ali para os lados do Largo do Camões. Após o repasto, caminhávamos já meio alegres e decidimos sentarmo-nos ali mesmo nos degraus de uma igreja. Puxámos cada um do seu cigarro e observámos o que se passava ao nosso redor em silêncio.

As pessoas com a eterna pressa, o contra relógio da vida, os minutos das horas de almoço contadas.

- Achas que daqui a uns anos seremos assim? - perguntou ele.

- Assim como? - questionei.

- Reféns da vida ao invés de usufruirmos dela em pleno.

- Sim, suponho que ocasionalmente seremos assim. Seria bom vivermos 24 horas por dia em ritmo de cruzeiro mas não creio que isso seja viável. Não para gajos como nós.

- Não achas que já somos assim?

- Bem, de momento não. Afinal de contas, estamos sentados nos degraus de uma igreja a fumar e com um grau de alcoolémia significativo. Posso afirmar com alguma certeza que de momento não somos de todo reféns da vida.

- Ok, de momento somos mais capazes de fazer reféns as beatas que estão dentro da igreja do que somos reféns da vida. Mas, e quando passar a alcoolémia e acabar o tabaco?

- Aí tu vais voltar a gerir a tua empresa com o afinco que te conheço e eu vou ser o profissional que sou. A vida não é um arco íris com um pote de ouro no fim. Eu sei isso, tu sabes isso, todos eles sabem isso. - disse, enquanto apontava para as dezenas de pessoas que passavam à nossa frente, indiferentes a dois fulanos sentados à porta da igreja.

Seguiu-se um demorado silêncio.

- Sabes, por vezes gostava que tudo fosse diferente.

- Toda a gente gostava que alguma coisa fosse diferente. Dou-te um exemplo. Vês aquela senhora que ali vai? Possivelmente, ela também gostava que algo fosse diferente. Gostava que a valorizassem mais no seu local de trabalho, que não olhassem para ela como se fosse um agrafador. Se calhar gostava de por uma vez na vida chegar a casa a tempo e horas decentes. De que os filhos não a tratassem como uma estranha, que não a fizessem pensar onde terá ela errado. De ter o jantar feito à sua espera, para variar. De ter tempo para ler um livro. Ou apenas para respirar. Todos nós desejamos secretamente que algo, por muito mínimo que seja, fosse diferente.

- Mas não depende de nós mesmos mudarmos as coisas?

- Claro que sim. Podes escolher ficar aqui a tarde toda. Podes exercer o teu direito ao livre arbítrio. O que te impede?

- Bom senso. Não posso. Tenho demasiadas responsabilidades, pessoas que dependem de mim.

- Exacto. Nada te impede de dar uma de James Dean, agarrares no carro e desaparecer do mapa. Até acho que isso seja saudável desde que não percas a tua casa no processo, a tua empresa abra falência e vás parar à cadeia por motivos obscuros. O que se passa é que estás cansado. Precisas de um time out. Apenas isso.

- Talvez seja isso. Sinto-me refém da minha vida.

- Não vais começar a cantar o "Soltem os Prisioneiros" dos Delfins, pois não? Senão juro-te que te agrido aqui mesmo. E olha que eu já não estou nas boas graças de Deus há muitos anos...

Passaram-se 8 anos desde esse dia.

E não mudámos assim tanto. Ambos continuamos a desejar pouco secretamente (como qualquer outra pessoa) por um bungalow numa praia deserta algures no meio do nada. A única diferença é que passado este tempo todo, sabemos que não somos reféns da nossa vida mas apenas das nossas decisões. Há que aceitar de braços abertos as boas que tomamos e aprender as lições que as más nos ensinam. E continuar a fazer por mudar as coisas. Cerrar os dentes e ir à luta. O bungalow pode não estar lá mas se eu tiver um Black&Decker e tiver a sorte de apanhar uns madeiros de um qualquer navio do sec. XIV naufragado, já é um bom começo. Pelo menos, a praia, essa ninguém ma tira.

Uma caixinha catita que permite pesquisar as entranhas dos últimos anos de posts. Muito útil, principalmente porque nem eu já me lembro de metade do que escrevi...

 

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